HOJE, EU; AMANHÃ, VOCÊS!

Dentre as diversas consequências das crises que o Brasil enfrenta, acredito que o estado de naturalização das coisas é uma das mais nefastas. Desde a naturalização da criminalidade nas nossas cidades, até a naturalização da corrupção generalizada e que praticamente foi estatizada por este e pelos últimos governos.

Muito provavelmente, em uma democracia mais consolidada, com melhores ferramentas de fiscalização e com uma cultura de participação política mais ativa na sociedade, o resultado da votação desta semana na Câmara dos Deputados teria sido suficiente para a população inundar as ruas da Nação.

Na verdade, os últimos meses já teriam sido a gota d’água para uma mobilização nacional exigindo uma repactuação democrática: “reforma” da previdência; decreto de extinção da RENCA; portaria do trabalho escravo; extinção do Ministério da Cultura; manutenção de ministros envolvidos na Lava-Jato; e, agora, compra de votos para se manter no poder. Agora não, de novo. Outra vez.

E é importante pontuar que, também, em uma democracia mais consolidada, muito possivelmente, um Senador da República gravado negociando R$ 2 milhões em propina e alertando que a mula tem que ser alguém que se possa matar antes da delação, não estaria mais no mandato.

O envolvimento evidente de Aécio Neves em casos de corrupção e a instituição Senado Federal fechar os olhos para isso se equipara ao envolvimento evidente de Michel Temer no quadrilhão do PMDB e a instituição Câmara dos Deputados fechar os olhos para isso. E pior, fechar os olhos motivados por agrados (vamos ser educados aqui).

Quanto a essa sessão da Câmara que enterrou a denúncia contra o Presidente, algumas observações de bastidores: 1. oito Ministros de Estado estavam o tempo todos (12 horas de sessão) com seus celulares negociando o apoio dos deputados para o governo; 2. o líder do governo na Câmara foi flagrado comparando o painel de presença com uma lista de emendas parlamentares; 3. o governo teve muita dificuldade de conseguir o apoio mínimo para que a denúncia sequer fosse votada; 4. Rodrigo Maia, presidente da Câmara, continua muito infeliz com o presidente Temer (e esse é um inimigo que Temer não quer ter).

Se essas coisas revoltam você, aqui vai um outro questionamento: por que ainda estamos parados apenas assistindo essas coisas acontecerem sem nada fazer com o que é nosso? Nosso sim, o que é público é do povo. O próprio poder emana do povo, não nos esqueçamos.

A lógica deles é simples: “se o STF está me tirando do mandato, qual a sua segurança de que amanhã ele não vai fazer com você? Se a PGR está me investigando, e eu sou o Presidente, qual a segurança que tem você, deputado, de que amanhã não será você?”

Agora, a lógica que eu quero entender é o porque da sociedade estar inerte. E aqui falo tanto dos paneleiros com camisa da CBF, quanto dos que andam por aí com camisa do Che Guevara.

No final das contas, o corporativismo corrupto impera, a sociedade apática assiste esperando o próximo escândalo no Jornal Nacional e assim seguimos com o Brasil rumo a esperança de que em 2018 haja uma verdadeira Operação Lava-Voto. Só existe o que se faz. Precisamos fazer!