2016

2016

(Imagens: Filipe Frazao/ Shutterstock)

Metade do ano. Chegamos a metade do tão esperado ano do impeachment, do longínquo ano das Olimpíadas RIO 2016 e do 4º ano de House of Cards (série americana ou realidade brasileira, o leitor decide). De toda forma, o que fizemos até agora? O que nos propulsemos fazer? O que ainda iremos fazer?

Em uma perspectiva macro-cósmica, a segunda década desse século vem sendo pautada – seja no campo social, político ou econômico – por uma iminência de mudança e transformação que ainda não se concretizou. Mudança para onde ou para o que? Talvez esse seja o problema, saturamos um sistema antes mesmo de desenvolvermos um novo.

Ficamos tão obcecados pela era do consumismo, “ser vs. ter”, futuro-futuro, que nem em nossos pensamentos fomos sustentáveis. Não vivemos o nosso presente, pensando em conceitos; e não sabemos como viver o nosso futuro, ainda pensando em conceitos. Em um ciclo vicioso, nossa sociedade atingiu uma hipocrisia que abrange direita, esquerda e o considerado novo. Impossível se limitar ao campo político, agentes públicos, sistemas de governo, instituições, quando, infelizmente, o problema chegou à espinha dorsal da civilização: a cultura social.

Desespero? Esperança? E agora? Precisamos reinventar as ferramentas que podem mudar essa cultura, que podem transformar a sociedade, e o ano de 2016 está marcando o limite para isso. Não porque um calendário antigo disse, mas porque essa angustia que sentimos, essas explosões em redes sociais que compartilhamos, e essas situações inimagináveis de civilidade que vivenciamos todos os dias – desde estupros coletivos à animais abatidos friamente – apontam para o limiar do nosso entendimento, da nossa sobrevivência (mental ou física).

Dentre os agentes com maior possibilidade de ação, os jovens. Dentre os formatos com maior efetividade e durabilidade, a educação. Dentre as ferramentas com maior potencial de transformação, a política. Ações como a Lava Jato, as investigações do Ministério Público e o apoio dessa mesma sociedade dão à Política uma esperança de renovação efetiva. Mas não importa quantas postagens sejam feitas em cima de movimentos financiados pelo antigo, qualquer verdade no discurso apenas irá romper a barreira da hipocrisia e as manobras desse mesmo antigo quando as urnas eletrônicas apontarem que realmente existe uma sincronia entre vontade e realidade, esperança e realidade, presente e realidade.

O pavio foi aceso nas manifestações de Junho de 2013. Desde então, as brumas que se formam diante de nós todos os dias, em cada escândalo, em cada movimento, em cada situação, ainda não revelaram se estamos diante do verdadeiro novo ou apenas da manutenção de um status quo com uma nova roupagem. Entretanto, mais importante do que esperar dissipar, é refletirmos sobre o que realmente estamos fazendo para finalmente atingir um novo sistema que substitua esse já saturado. Para atingir uma nova Era de desenvolvimento econômico, social e humano em nossa Nação.

2016 está sendo marcado por massacres baseados em orientações sexuais, em fundamentos religiosos e em fronteiras físicas. Em nossos universos pessoais, parece irrisório pensarmos que jogar o lixo no lixo muda algo, que darmos bom dia ao vizinho transforma alguma realidade, que confirmarmos o nosso voto naquele que tem um bom projeto e ao mesmo tempo aparece em último nas pesquisas eleitorais vá fazer algumas diferença, mas nos esquecemos que somos seres coletivos. Política é pensar o coletivo, é transformar positivamente o coletivo.

E é isso que está faltando, não só na política, mas na sociedade em geral: perceber que somos todos seres humanos. Nas filas do SUS, nas carteiras escolares, nas calçadas frias da cidade de São Paulo, nos RHs das empresas, somos todos seres humanos. Não podemos mais ser “nós e eles”, “aqui ou lá”, “esquerda e direita”. Ou mudamos isso ou iremos sucumbir como civilização. São tantas as crises aí postas, não podemos nos dar ao luxo de chegar ao “ponto sem volta”. Esse ano nos dá a oportunidade de escolhermos, de fato, a mudança. Que venha a segunda metade de 2016, que saibamos votar direito nessas eleições.

ARTIGO 1º, PARÁGRAFO ÚNICO

Seja você de direita, esquerda, centro ou que simplesmente prefira se abster dessa classificação, é inegável o fato de que há muito tempo não se via um cenário tão politicamente ativo em solo brasileiro. Quase três milhões de pessoas saíram às rua no dia 15 de março de 2015, manifestando-se por “n” fatores. Outras milhares manifestaram-se ao longo das últimas semanas pelas redes sociais.

Alguns queriam o impeachment da Presidente Dilma, os mais radicais clamavam por uma intervenção militar constitucional, mas a grande maioria, estupefata pelos inúmeros e diários escândalos de corrupção no governo federal, convergia simplesmente para medidas que inibam essa prática que tanto deturpa o nosso país. Os manifestantes eram homens e mulheres. Idosos, adultos, jovens, crianças. Brancos, negros, amarelos. Ricos e pobres. Patrões e operários. Enfim, eram brasileiros.

A BBC Brasil divulgou, na véspera das manifestações, uma análise do conteúdo brasileiro das redes sociais e a conclusão é animadora: nas semanas que antecederam os protestos, entre as 2 milhões de citações verificadas, os conteúdos comentados referentes à política, eram quatro vezes mais popular do que os termos relacionados ao Big Brother Brasil. Uma clara indicação de que se tem uma boa consequência de toda essa movimentação política – protestos, eleições, manifestações, discussões – é o fato do brasileiro estar debatendo política. Ouso dizer que isso é mais fundamental do que qualquer reforma política realizada em Brasília.

A verdadeira reforma política está diretamente relacionada a (re)educação política. Diferente das prioridades deste governo, que cortou, por decreto da Presidente Dilma, R$ 7 bilhões do orçamento da Educação somente neste ano, a mudança só virá através da educação. A educação social, que irá garantir a independência da intolerância, respeito às liberdades individuais e coletivas; a educação acadêmica, que irá garantir a independência econômica e a prosperidade das famílias brasileiras; e a educação política, que irá garantir a nossa independência do antigo sistema político, dos coronéis que se apossaram das cadeiras do Congresso, dos atos que impedem o cumprimento da nossa Constituição Federal. Irá garantir a segunda independência da nossa Nação. Não é um processo fácil, tão pouco para resultados a curto prazo, mas certamente irá surtir efeitos em algumas gerações.

Projetos pioneiros como o “Jovens Pensadores” na Baixada Santista, ou o “Protagonismo Juvenil Como Via Para Construir Meu Projeto de Vida”, no centro-oeste do Estado de São Paulo, trabalham o desenvolvimento da criança e do jovem em uma educação política. Instituições como a RAPS, Rede de Ação Política pela Sustentabilidade, já buscam a formação e capacitação de futuras lideranças e empreendedores sociais, em um processo político mais ético, transparente e sustentável. Esses são exemplos de como a verdadeira “reforma política” já começou no Brasil, cabe a nós aderi-la e fazê-la dar certo.

É um momento de extrema relevância para a história do nosso país. A quantidade de brasileiros que foram às ruas na última semana fora quase a mesma quantidade que deu a vitória presidencial à Dilma Rousseff. Cerca de três milhões de brasileiros decidiram a eleição mais acirrada da nossa história e cerca de três milhões de brasileiros reinvindicaram direitos básicos, reinvindicaram o fim da corrupção.

Estamos em um momento de debates e diálogos. Um efeito que já se arrasta desde as eleições. Não se via antes tantas postagens, menções, conversas e emissão de opiniões referênte à política. Isso é extraordinário, seja a sua opinião pró ou contra o governo. O brasileiro está debatendo política e esse é o caminho. 15 de março de 2015 foi o maior ato de manifestação pública já realizado neste país, maior inclusive que o movimento “Diretas Já” dos anos 80.

O artigo primeiro, parágrafo único da Constituição Federal Brasileira, diz o seguinte: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”. É claro, direto, objetivo.

Publicado em: Jornal Comércio do Jahu / Jornal Diário da Serra