É BOM SER MULTADO DE VEZ EM QUANDO

Não vou fazer discurso demagogo, afinal de contas ninguém gosta de receber uma multa. Mas certamente alguma coisa aprendemos quando esse fato inquietante, que nos faz ter vontade de chutar até mesmo o poste, acontece. No meu caso, esqueci de ligar o farol baixo do carro enquanto trafegava por uma rodovia durante o dia.

Meu objetivo aqui não é entrar no mérito dessa nova exigência legal, nem mesmo no debate sobre o Estado intensificar a fiscalização com a finalidade de garantir mais multas para aumentar a arrecadação (vide a indústria da multa na cidade de São Paulo). Entretanto, além de pagar os R$ 130,16 até o final deste mês, me vi em uma reflexão sobre passividade, igualdade e responsabilidade.

Isso faz de mim um criminoso? Certamente não, assim como ter uma garrafa de Pinho-Sol na mochila não deveria levar ninguém à cadeia. Mas a sensação que eu tive ao abrir a cartinha do Governo do Estado de São Paulo, que em uma eficiência singular já me informava onde eu poderia acertar minha divida, é de que realmente todos nós estamos passíveis de infringir a lei, mesmo que sem querer, como foi o meu caso.

Justamente por isso – ainda mais em tempos de tribunais “convictos e especializados” nas redes sociais – precisamos redobrar o cuidado antes de apontar o dedo e até mesmo condenar alguém. São inúmeros os casos de pessoas sumariamente condenadas pela imprensa e pela população, e que depois foram inocentadas pela justiça (a quem realmente cabe o papel de julgar e condenar). O problema é que nesses casos, mesmo inocentadas pelo juiz, dificilmente o são pelos seus primeiros julgadores. E isso se aplica desde o sujeito que rouba um pão, porque não tem o que comer, até o político que desvia milhões, porque é bandido safado mesmo.

Pelo amor da santa Constituição, não há aqui defesa de corrupto, apenas pontuo os papéis a quem cabe por direito. Nossa defesa deve ser sempre pelo reforço as investigações e pela confiança no trabalho da justiça, mesmo que às vezes ela falhe. Ninguém está acima da lei, nem você, nem eu e nem o ex-presidente Lula. Fico apenas me perguntando se esses que são multados em milhões de reais a partir da Operação Lava-Jato, como Lula, param um minuto que seja e fazem uma reflexão honesta.

O ponto que quero chegar é sobre responsabilidade, tanto de quem infringe as leis, quanto de quem aponta o dedo. A questão é que o primeiro pode o fazer sem querer, já o segundo condena por querer mesmo. Cabe a nós a responsabilidade de sempre termos uma coisa em mente: todos somos humanos, passíveis de errar. É bom nos lembrarmos disso de vez em quando, nem que seja por meio de uma multa de trânsito.

UMA REPÚBLICA NÃO PODE CAIR SE HÁ TEMPOS JÁ ESTAVA NO CHÃO

Não há precedentes em nossa história recente! Nem mesmo o Golpe Militar de 1964 mostrou um país tão fragilizado. Lá, a violência ocorria de fora para dentro, quando um grupo se articulou e tomou, pela força, a República. Aqui, a violência ocorre de forma transversal, dentro e fora do governo, em todas as esferas e instâncias, quando diversos grupos se articularam e tomaram, pela corrupção, a República.

As delações da JBS surpreendem a própria surpresa de termos um Estado cuja corrupção fora institucionalizada não apenas pela Odebrecht, mas também por diversos outros setores e agentes públicos. Agora, fica claro que a discussão de “quem votou em quem” é sem sentido e apenas tira o foco do que importa: nos roubaram a República.

Roubaram, no plural, porque não foi um político, um partido ou uma empresa. Foram diversos políticos, partidos e empresas. E os pouquíssimos que sustentaram por tanto tempo a verdadeira luta contra a corrupção, e que, por consequência, hoje estão isentos de qualquer envolvimento com os escândalos, sofrem ataques covardes daqueles que estão mais do que na mira da Lava-Jato e articulam para acabar com a operação.

Quando quatro dos cinco principais presidenciáveis das eleições de 2006, 2010 e 2014 somam cifras que beiram os R$ 500 milhões em propinas, acima do sentimento de revolta está se estabelecendo um sentimento de desesperança. Desesperança no país e descrença generalizada naqueles que se propõem à vida pública. Isso é perigoso!

Perigoso porque abre margem aos oportunistas de plantão, aos “movimentos apartidários” comprados e aos discursos populistas que, para início de conversa, contribuíram para esse momento de crise na representatividade. Perigoso porque a generalização neutraliza aqueles que se posicionam pela defesa do Brasil e por uma nova forma de se fazer política.

O cerne da nossa Democracia é o poder que emana do povo e que há muito tempo não mais está nas mãos do povo. A República não caiu a partir das graves implicações do Presidente, ela já está no chão desde o momento em que o abuso de poder econômico e político fraudou eleições gerais, presidenciais, votações do Congresso Nacional e decisões da Esplanada dos Ministérios.

O caminho é um só: pela sociedade, a partir de Eleições Diretas! #ForaTemer #JulgaTSE #DiretasJá

AGENDA BRASIL

(Foto: Ricardo Nemetala-Pinterest)

 

A República caiu e não no momento do vazamento das gravações telefônicas envolvendo o primeiro escalão do Governo Federal. A República caiu no momento em que a máquina suprapartidária de corrupção se intensificou na Petrobras, nas obras públicas e nos governos brasileiros. Em momentos de crise como este em que vivemos, é muito raro encontrarmos uma solução que resolva de imediato todo o problema. Entretanto, devemos ser enérgicos e começar a adotar medidas que combatam essas práticas nefastas à nossa Nação. Medidas que responsabilizem àqueles que cometeram crimes contra a nossa pátria. Não podemos desistir do Brasil.

Chegamos ao ponto em que as evidências e investigações convergem à um dos maiores desvios conhecidos de recursos públicos do mundo, em regimes democráticos ou totalitários. A Presidente Dilma deve ser afastada do cargo, o ex-Presidente Lula deve ser levado à julgamento, assim como a maioria do Congresso Nacional deve ser investigada pelos mesmo crimes cometidos contra o nosso país. Mas em verdade, está posto um novo questionamento: e agora?

Temos a sociedade nas ruas, temos as instituições tomando posições, temos um governo divido, e por 20 dias é tudo o que temos, por 20 anos é tudo o que tivemos: um verdadeiro Fla-Flu que levou, essa semana, ao homicídio de um militante pró-impeachment. Isso não é uma construção de democracia, isso não é uma construção de coletividade, isso não é uma construção de Nação. Ninguém está discutindo nada,  nota-se uma acefalia geral, uma anomalia social. Estamos no caminho para uma silenciosa e inconsequente guerra civil.

Onde estão as instituições pensando em como sair dessa crise? Onde estão as escolas incentivando nossas crianças a desenvolverem novas formas de pensar? Onde estão os partidos políticos e suas lideranças refletindo uma nova forma de se fazer política? E principalmente, onde está o povo brasileiro fazendo efetivamente a sua parte pelo progresso da nossa Nação? Sem discussão não há planejamento. Sem planejamento não há construção. Sem construção não há evolução. E esse é um erro catastrófico que o nosso país, bem recentemente e recorrentemente, já cometeu.

Nossa economia novamente está falida; nosso sistema político novamente está saturado; e nossas políticas sociais novamente são inexpressivas. Todo o caminho avançado desde a redemocratização do Brasil está em risco e não é por meia dúzia de defensores de uma intervenção militar. – porquê convenhamos, não irá ocorrer uma nova ditadura militar, sequer as 3 milhões de pessoas dos protestos estivessem clamando por isso, e elas não estavam. Eu sei disso, você sabe disso, as Forças Armadas sabem disso – É pelo nosso povo estar perdido, sem representação, sem direcionamento, sem saber pensar, que estamos estagnados.

O planeta avança para a terceira década do século XXI. Os países se organizam em torno de uma nova ordem, pensando cada vez mais em políticas públicas que alinhem o social ao econômico. Refletindo e agindo, mesmo que aos poucos, por um desenvolvimento mais sustentável. Porquê a crise não é um privilégio do Brasil, mas aqui ela está agravada pelo profissionalismo da corrupção.

Para entendermos – e até pautarmos – o papel que o Brasil irá desempenhar neste novo ciclo da história globalizada, faz-se necessário discutirmos hoje quanto aos rumos pelos quais o nosso país está sendo conduzido. E o primeiro passo para isso são eleições diretas e gerais, já! O segundo passo, a discussão programática de uma Agenda Brasil: princípios e ações pelo país que queremos. Na educação, na saúde, na economia, na política, no trabalho, na sociedade. Não deveria ser nesta ordem, eleições e depois debate, mas a urgência e gravidade presentes na atual conjuntura não nos dão outra opção. Apenas nos resta reunificar o Brasil e irmos juntos em torno de ações, em torno de pessoas que agem e sempre agiram além do discurso bonito de um desenvolvimento sustentável.