A LÓGICA POLÍTICA QUE NÃO CABE MAIS NO BRASIL

Muito revoltou a população brasileira as notícias de que o Presidente Michel Temer teria gasto R$ 4.1 bilhões, em dinheiro público, para comprar o apoio de deputados federais e, dessa forma, se livrar de sua denúncia por corrupção passiva. Essa grana foi liberada na forma de emendas parlamentares entre junho e julho deste ano e, ao que tudo indica, rendeu até mesmo o célebre viaduto – quase uma lenda urbana – para Botucatu.

Os 263 votos que enterraram essa denúncia foram mais uma gota no copo da polarização hipócrita que reina no Brasil. Esse guerra de 5ª série – com todo respeito às turmas de 5ª série – extrapolou as redes sociais e tomou o Plenário da Câmara dos Deputados. Deputados da base e da oposição iniciaram, literalmente, uma guerra de pixulecos (bonecos infláveis do Lula Presidiário) que rendeu até uma bronca constrangedora do Presidente da Câmara, Deputado Rodrigo Maia.

Qual é o ponto aqui: a palhaçada não é da direita ou da esquerda, é das duas linhas de pensamento político (se é que ainda existem tão bem delineadas). Partidos “de direita” apoiaram fortemente Temer sob um discurso de estabilidade nacional; e partidos “de esquerda”, embora com falas fortes contra o governo, exoneraram secretários estaduais e trabalharam nos bastidores pela manutenção de Temer na Presidência.

Mais do que isso, a grande prova de que as críticas dos partidos de esquerda se resumem em grande hipocrisia política é que, assim como Temer e os seus R$ 4.1 bilhões em emendas, a ex-presidente Dilma Rousseff também liberou emendas parlamentares na época do impeachment na tentativa de salvar sua presidência. Em maio de 2016 foram cerca de R$ 3.6 bilhões. Dinheiro público!

Nos discursos durante a votação a esquerda acusava a direita de tentar blindar o Temer e a direita acusava a esquerda de ter quebrado o Brasil nos últimos 14 anos. O pior de tudo é que ambos os lados estão certos! E o problema é que ao invés de assumirem a besteira que foi/está sendo feita e abrir espaço para pessoas honestas que querem debater a reconstrução do Brasil, ficam brigando com pixulecos, acusando uns aos outros e fazendo discursos populistas.

Enfim, a questão não é mais direita vs. esquerda (não a é desde a Constituinte de 88). O Brasil está cansado dessa lógica-ilógica. Essa lógica de compra de deputados por emendas, praticada tanto por Temer (R$ 4.1 bi), quanto por Dilma (R$3.6 bi). E essa ilógica de que no final ambos os lados dividem a televisão do cafezinho do plenário para acompanhar a novela das 21h.

Precisamos de pessoas propositivas, debates construtivos e visão de Estado para o nosso Brasil. E antes que alguém venha clamar por Jair Bolsonaro 2018, saiba que ele recebeu pouco mais que R$ 2.6 milhões, daqueles bilhões de Temer.

REPÚBLICA DO RABO PRESO
(OU QUALQUER OUTRO CLICHÊ)

(Foto: fonte desconhecida)

O Brasil completa hoje 20 dias de Governo Michel Temer, e então? Ministros de Estado afastados, oscilações negativas no mercado financeiro, Lava Jato que avança cada vez mais em sentido ao Congresso Nacional. O que mudou? Opositores dizem que o governo interino aprofundou a crise; governistas dizem que precisam de tempo para mudar; e corruptos, de modo geral, dizem que a Lava Jato precisa ser detida. Nunca na história desse país, tanta gente apareceu em gravações telefônicas engajadas em deter uma mesma operação investigativa. E no meio desse toma-lá-da-cá, as delações premiadas ficaram no passado quando se trata de favoritismo em evidências, o momento é das gravações.

Com efeito, foi no afastamento do segundo Ministro de Estado do Governo Temer que começou o discurso de que esta é a República do Rabo Preso. De fato, as gravações telefônicas mostraram que grande parte dos partidos políticos e agente públicos, não importando suas ideologias, estão implicados entre si nos diários escândalos de corrupção. Entretanto, não podemos – sendo nós coxinhas, mortadelas ou um misto quente – pensar que os rabos presos começaram e são um privilégio do Governo Temer.

A República do Rabo Preso acontecia no Governo Dilma, acontecia no Governo Lula, e nos anteriores. Consequência da lógica de apoio político que temos hoje em nosso país. A causa do problema não está apenas no presidencialismo de coalisão, está enraizada na lógica de apoio geral, onde prevalece, em seu sentido mais corrupto, “o que fica bom para todo mundo”. É uma questão cultural.

O policial não aplica a multa se o motorista pagar o cafezinho; o colega na fila da lanchonete não conta nada se ganhar uma parte do troco recebido em excesso; o funcionário aceita pedir demissão se o patrão fizer um acordo e pagar por fora o que deveria ser pago em impostos. Sempre tivemos Repúblicas de Rabos Presos porque sempre vivemos em uma Sociedade de Rabos Presos. É um clichê, só não havíamos percebido.

Não será o Presidente em exercício Michel Temer que irá limpar o Brasil, ou qualquer outro político que pense por essa lógica. Vivemos uma Cultura de Corrupção e não apenas no Congresso Nacional, também em nossas casas, no dia a dia. O poder de limpar o Brasil está nas mãos da sociedade, mas para isso é preciso limpar essa mesma sociedade.

Temos que olhar para a educação de nossas crianças, nossos jovens. Olhar para nós mesmos e fazermos uma reflexão do que é mais vantajoso: deixar de pagar uma multa e dar esse exemplo para o filho que está no banco de trás do carro, ou lutar para que os impostos provenientes dessa multa paga sejam corretamente aplicados na saúde, educação e segurança que essa mesma criança irá ter a disposição durante sua vida?

O que vemos hoje acontecendo no nosso país, essas crises tão profundas, não são consequência apenas da corrupção no setor público. Há menos de dois anos nós elegemos esse Congresso Nacional, nós elegemos uma agora presidente afastada, suspeita de ter praticado crime de responsabilidade. O que vivemos hoje no Brasil também é consequência das nossas escolhas como cidadãos, escolhas tomadas por anos, por décadas. Exemplos dados às nossas crianças, crianças essas que irão votar amanhã, crianças essas que serão votadas amanhã. Pensemos nisso.