UMA REPÚBLICA NÃO PODE CAIR SE HÁ TEMPOS JÁ ESTAVA NO CHÃO

Não há precedentes em nossa história recente! Nem mesmo o Golpe Militar de 1964 mostrou um país tão fragilizado. Lá, a violência ocorria de fora para dentro, quando um grupo se articulou e tomou, pela força, a República. Aqui, a violência ocorre de forma transversal, dentro e fora do governo, em todas as esferas e instâncias, quando diversos grupos se articularam e tomaram, pela corrupção, a República.

As delações da JBS surpreendem a própria surpresa de termos um Estado cuja corrupção fora institucionalizada não apenas pela Odebrecht, mas também por diversos outros setores e agentes públicos. Agora, fica claro que a discussão de “quem votou em quem” é sem sentido e apenas tira o foco do que importa: nos roubaram a República.

Roubaram, no plural, porque não foi um político, um partido ou uma empresa. Foram diversos políticos, partidos e empresas. E os pouquíssimos que sustentaram por tanto tempo a verdadeira luta contra a corrupção, e que, por consequência, hoje estão isentos de qualquer envolvimento com os escândalos, sofrem ataques covardes daqueles que estão mais do que na mira da Lava-Jato e articulam para acabar com a operação.

Quando quatro dos cinco principais presidenciáveis das eleições de 2006, 2010 e 2014 somam cifras que beiram os R$ 500 milhões em propinas, acima do sentimento de revolta está se estabelecendo um sentimento de desesperança. Desesperança no país e descrença generalizada naqueles que se propõem à vida pública. Isso é perigoso!

Perigoso porque abre margem aos oportunistas de plantão, aos “movimentos apartidários” comprados e aos discursos populistas que, para início de conversa, contribuíram para esse momento de crise na representatividade. Perigoso porque a generalização neutraliza aqueles que se posicionam pela defesa do Brasil e por uma nova forma de se fazer política.

O cerne da nossa Democracia é o poder que emana do povo e que há muito tempo não mais está nas mãos do povo. A República não caiu a partir das graves implicações do Presidente, ela já está no chão desde o momento em que o abuso de poder econômico e político fraudou eleições gerais, presidenciais, votações do Congresso Nacional e decisões da Esplanada dos Ministérios.

O caminho é um só: pela sociedade, a partir de Eleições Diretas! #ForaTemer #JulgaTSE #DiretasJá

OS TEORIs QUE NÃO PODEM MORRER

(Imagem: Divulgação STF)

O que legitima alguém ao posto de Herói Brasileiro? Suas realizações profissionais e pessoais? Seus sacrifícios por uma causa e até mesmo pela pátria? Seja lá como for, o para sempre Ministro Teori Zavascki foi um desses heróis brasileiros. Não apenas por suas realizações no campo jurídico do nosso país, mas principalmente por sua firmeza e lealdade para com o futuro da Nação.

Nosso país atingiu um estado de choque ao saber da inoportuna morte de Teori. Não que haja um momento oportuno para a morte, mas muitos pareceram não olhar para o homem acidentado, apenas para a tragédia ocorrida com o relator dos processos “Lava-Jato” no Supremo Tribunal Federal. Um risco, entretanto, para aqueles que se sobressaem em suas funções, especialmente as públicas e de notória diferença do comum (e aqui se lê alinhados com o que é correto e não com o que é corrupto).

O perigo dessa despersonificação, ou seja, não mais ver o homem e sim a posição e o trabalho, pode acarretar em questões mais perigosas para a nossa democracia do que as próprias teorias da conspiração que surgiram após o acidente fatal: a onda de desesperança; o sentimento de insubstituição; e, no caso, o entendimento de final de linha da Lava Jato.

Infelizmente – e podemos afirmar isso de forma bem categórica – no meio em que o ministro atuava, poucos agem de forma heroica, poucos resistem às tentações do poder e se mantém firmes naquilo que devem fazer pelo bem do país. Isso não significa, entretanto, que essas pessoas não existem. Elas existem e a desconfiança sugere que, para além dos limites dos gabinetes, elas são em um número muito maior do que imaginamos.

O mecânico que cobra o preço correto, o policial rodoviário que recusa o cafezinho, a médica que vê o ser humano do outro lado da mesa, a população brasileira que entende o “jeitinho brasileiro” ser mais como uma ginga do respeitoso samba e menos como uma forma esperta de ganho ilícito. Porque o ditado já dizia que o poder corrompe, mas também dizia que os poderosos vem da sociedade.

Da forma como for, a superação das crises que nosso país enfrenta só virão por meio de seus heróis. E aqui não há referência aos “heróis institucionais”, como os Joaquims e Moros, por mais legítimos que possam ser. Mas sim, há referência aos que vão legitimamente para as ruas. Aos que, para além da hipocrisia, vivem a democracia e combatem as pequenas corrupções. Aos que fazem o que é preciso, o que lhes cabe e o que é correto, assim como Teori fazia.

Seu reconhecimento como herói não ocorre no discurso da martirização, mas sim no campo do exemplo. Nas histórias em quadrinhos, heróis são aqueles que detém superpoderes ou que fazem coisas fantasiosas. Aqui, hoje, heróis são aqueles que agem de forma honesta ou apenas cumprem a sua função constitucional. Talvez isso seja deter superpoderes e agir de forma fantasiosa. Teori Zavascki era um deles! Não deixemos seu exemplo se esvair em vão nas linhas da história, sejamos nós também heróis brasileiros. Essa é a esperança que não pode morrer.