PONTE PARA ONDE,
TRANSIÇÃO PARA O QUE

(Foto: Thinkstock)

Todo governo é baseado em um planejamento. É com base nesse plano de governo que a população fundamenta – ou deveria – a escolha de qual candidato a representa melhor. Uma das questões mais alertadas por Marina Silva na campanha presidencial de 2014 foi o fato de que a candidata, a agora Presidente afastada Dilma Rousseff, não havia apresentado um plano de governo. A população, ludibriada por um estelionato eleitoral, votou e elegeu uma candidata sem um projeto, sem um programa, e aí estão os resultados. Afastada por até 180 dias, assume então o seu companheiro de chapa, o vice-presidente. Não entremos no mérito da validade do processo de impedimento – até porque trata-se de um dispositivo constitucional validado pelo Supremo Tribunal Federal – mas entremos sim no mérito da legitimidade do agora Presidente em exercício, Michel Temer.

Michel Temer também estava na cédula eletrônica de votação. Temer também recebeu 54 milhões de votos. E também não tem um plano de governo. O que Michel Temer apresentou aos brasileiros, não nas eleições, mas na iminência do impeachment, foi um documento chamado “Uma Ponte para o Futuro”. Leitura curiosa, são apenas 19 páginas. 19 páginas que em tese contém as diretrizes para a reconstrução da Nação.

Tracemos um universo paralelo em que o documento não foi escrito por um dos partidos com maior presença nas estatísticas de corrupção do país e tentemos – se possível – fazer uma leitura sem prejulgamentos. Em um primeiro momento, o espírito patriótico que o PMDB tenta imprimir em suas linhas é até animador. Com um tom de unidade nacional, o texto é realmente muito bom e não poderíamos esperar outra coisa. Michel Temer tem a chance de manipular o sistema para gravar seu nome na história como aquele que recolocou o país nos rumos do desenvolvimento e reverteu os malfeitos causados pela corrupção.

Entretanto, quando se atenta nas entrelinhas, e nos lembramos de quem está à frente dessas propostas, as “soluções” pensadas para as nossas crises são perturbadoramente desesperadoras. “Uma Ponte para o Futuro” pede mais confiança nos Políticos e menos nos técnicos. Pede mais confiança no governo, governo esse que possui sete de seus Ministros de Estado envolvidos na operação Lava Jato. Clama que a solução está na alteração da Constituição Federal e na maior liberdade do Congresso Nacional em deliberar sobre os recursos do nosso orçamento, retirando, inclusive, os gastos obrigatórios em saúde e educação.

No fundo, uma pauta vazia. Vazia em conteúdo inovador, em potencial de transformação positiva. O que vemos ali é a manutenção do mesmo presidencialismo de coalisão já saturado e a base perfeita para o PMDB eleger um candidato próprio em 2018 para a Presidência da República. Curioso, entretanto, observarmos que estamos em uma Era das Pautas Vazias, onde a nossa sociedade aplaude e empodera, além da falta de conteúdo, seus representantes tão vazios quanto. E não apenas falando de atores da política institucional, mas também dos que “defendem” a democracia por meio dos movimentos e instituições, como o Movimento Brasil Livre (MBL).

A falta de conteúdo nas pautas e propostas, e a valorização destas por parte da população apenas aponta para um dos principais problemas da crise civilizatória que vivemos: uma sociedade de pauta vazia. Estamos tão acostumados em ir ao Google, recorremos ao maravilhoso mundo da internet para sanar nossas dúvidas e angústias que perdemos, como sociedade, a capacidade de pensar e fomentar a criação de conteúdo social, político, econômico. E quando isso acontece, qualquer personagem que apareça discursando o que queremos ouvir já e aplaudido, o vangloriamos. Porque pensamos que ali estão as respostas que individualmente tivemos preguiça de raciocinar.

Observemos todas as atuais crises de nosso país: política, econômica, social, civilizatória e façamos um exercício de tentar desmembrar suas causas e chegar a “raiz” dos problemas. Quase sempre – senão sempre – somos nós. E mesmo quando pensamos que o problema está na corrupção dos políticos, lembremos que fomos nós, como eleitores, que os elegemos há menos de dois anos.

“Uma Ponte para o Futuro” não é nada mais nada menos do que uma pauta vazia pela manutenção do sistema corrupto que já saturado se encontra. Esse governo de transição, a glorificação de personagens que dizem o que queremos ouvir. Continuam o estelionato, agora governamental, onde a população deposita erroneamente as esperanças de uma Nação frente ao desespero causado pela indignação – e isso é positivo – da corrupção dos últimos anos.

Não fiquemos sentados esperando o Presidente em exercício, Michel Temer, desempenhar um papel que não lhe cabe. Não é ele ou seu corpo de ministros que irá salvar o país. Somos nós, povo brasileiro, que temos o poder de reerguer o Brasil. O único meio de atingirmos isso, é nos unificarmos como Nação. Não envolta de um discurso vazio de ordem e progresso, mas em volta do pensar, criar e executar conteúdo desenvolvido colaborativamente por todos nós. A ponte deve ser para o agora e a transição, para o Brasil em que queremos criar nossos filhos.

NA FALTA DE ADJETIVOS, CUSPES DIÁRIOS

(Foto: Shannon Stapleton / Reuters)

Nos últimos dez dias desta República, os brasileiros se viram frente à um “Portão de Rollemburgo”, a um plenário “pela minha igreja e pelos meu sobrinhos”, a um cuspidor que perdeu a razão e um sem razão que homenageou um torturador. Se viu diante de um “que Deus tenha piedade desta Nação”, em sua face mais corrupta. A uma quase ex-presidente em tarja-preta e um quase presidente afirmando as eleições diretas serem um golpe. E quando não havia mais o que ver, viu a próxima capa da Playboy dentro do gabinete. Errada ela? A repercussão apenas refletiu o machismo de uma sociedade “bela, recatada e do lar”.

São nesses momentos de desesperança, vendo uma deputada federal dedicar seu voto em plenário ao seu marido, suposto prefeito exemplar, e em menos de 12 horas o mesmo ser preso na operação Lava-Jato, que realmente paramos para nos perguntar a que ponto chegamos. Onde está o erro? Como corrigir? E é nessa hora que devemos olhar com humildade e perceber que, essa Camara dos Deputados que tanto lamentamos no último dia 17 de abril, fomos nós que elegemos e a menos de dois anos. É Dilma? É Temer? É Cunha ou Aécio? Não apenas, também somos nós.

Nas Redes Sociais ou em restaurantes de luxo, em postagens explosivas ou cusparadas de ódio e saliva. Paremos! Respiremos! Precisamos unir o Brasil, não dividir cada vez mais. Usamos a democracia para justificar nossos atos, mas a democracia não se define em excluirmos os amigos que discordam de nós e apenas confabularmos com aqueles que concordam. A democracia preza pela pluralidade de pensamentos, preza pelo respeito à opinião diversa. Basta de discursos de ódio, de ambos os lados. Precisamos de uma construção coletiva em torno de um programa para a Nação, uma pauta, uma agenda.

É por essa perspectiva que o sistema está saturado. Não cabe mais o pragmatismo desenfreado em nosso Estado. As negociatas por cargos, vantagens financeiras, tráfico de influência. De forma consciente para alguns e inconsciente para outros, mas a sociedade carece de um programa, de ideias e de ação. A grande questão nisso tudo é, além de desejarmos a mudança, participarmos da mudança e sermos a mudança. Não apenas pedirmos a idoneidade de nossos deputados, mas da mesma forma, não praticarmos um suborno ao agente de trânsito, não estacionarmos em locais preferenciais; Parecem atitudes inocentes, mas são elas que fazem o Brasil no dia a dia. São essas atitudes que definem quem nós somos como Nação!

O primeiro passo pela mudança, antes de nos reunirmos em volta do papel em branco e pensarmos em um programa de governo, é estudarmos política: ”O que faz um vereador? O que faz um deputado? Por que estou votando nessa pessoa? Ela me representa? E esse partido, quais suas ideias?”. Precisamos nos capacitar politicamente, no sentido original da palavra. A educação é o caminho, mas educação política é a chave que nos dá o acesso. Não teoricamente do ponto de vista acadêmico, mas na prática. Não esperemos a reforma acontecer, façamos a reforma e sejamos parte dela.

Na falta de adjetivos que classifiquem propriamente o que foi a supracitada sucessão de eventos lastimáveis em nossa republiqueta de bananas – forma como o jornal britânico The Guardian definiu o nosso país – praticamente cuspes diários nos rostos dos brasileiros. Afinal de contas, quando não se têm mais argumentos, parece essa ser a mais nova forma de debater política, não? Muitas aspas marcaram esse texto porquê muitas aspas existem na forma como nossa Nação vem sendo conduzida e mais, muitas aspas na forma como essa sociedade vem se comportando. Pelo fim dos cuspes, pelo fim das aspas. Por uma educação política, por uma nova eleição.

INSTITUIÇÃO BRASIL

(Foto: Eraldo Peres/AP)

Qual a diferença entre governo e Estado? Entre aquele grupo, “causa de todos os problemas do país”, que ganhou as últimas eleições e aquela formação democrática citada no preâmbulo da nossa Constituição Federal? Em uma das definições dos dicionários, governo: o presidente e seu ministério; Estado: país soberano, com estrutura própria e politicamente organizado. Em um primeiro momento, a distinção parece muito clara. A linha tênue que separa governo e Estado é a grande questão. E ainda mais, a inatenção da sociedade no que tange essa reflexão é o que realmente está destruindo o país nessa verdadeira guerra civil entre ‘mortadelas e coxinhas’.

Injusto, de fato, atribuir essa responsabilidade apenas à sociedade quando este próprio governo – e seus predecessores – não afere esse questionamento. Marca principal dessa constatação é a personificação presente em todo pleito eletivo: “porquê aquela política foi feita no governo do meu partido”; “porquê você vai destruir o programa implementado no meu governo”. É intrínseco, infelizmente, até a mudança de nome dos programas públicos apenas para dizer que essa boa ideia foi de um governo e não de outro.

O Brasil precisa de um Estadista, não mais outro governista. De um Estado, não um governo. Quando se é eleito Presidente de uma República, este não preside apenas seu eleitorado, passa a presidir toda uma Nação. Quando um Ministério implementa um programa social, não é o programa social daquele partido, é o programa social de todos os brasileiros. O governo é trocado de quatro em quatro anos, o Estado é único. Deveria ser único.

O mundo sempre esteve dividido em dois grupos: biscoito e bolacha; Samsung e Apple; comunismo e capitalismo; sertanejo e rock; Star Trek e Star Wars; gato e cachorro. Contudo, em uma República de alto rendimento como esta que desejamos para o nosso país, é insustentável a continuidade desse modelo de governar, entre nós e eles. Exemplo ilustrado é o inimaginável muro de aço construído na Capital Federal para separar os favoráveis e os contrários ao impeachment da Presidente Dilma Rousseff. Não podemos ter dois tipos de pessoas no país, precisamos de um único tipo: brasileiros. A unidade do Estado deve ser restaurada, precisa ser reinventada.

A reconstrução estatal começa no fortalecimento das instituições que compõe este Estado. Não podemos ter um Ministério Público fragilizado, não podemos ter uma Esplanada dos Ministérios desqualificada, não podemos ter um judiciário rifado, um Congresso Nacional desacreditado – e corrupto – e uma Presidência da República TEMERária. A sociedade não pode desistir do Brasil, não pode generalizar os agente públicos. Há pessoas boas em todos os lugares.

É preciso fortalecer nossas instituições, fortalecer a Instituição Brasil. Como fazer isso? A partir do momento em que uma democracia foi “construída” com base em mentiras, com base em dinheiro desviado dos cofres públicos, com base no medo e na ilegitimidade, o poder de decidir os rumos da Nação deve voltar a quem mais interessa, à própria Nação. Essa alternativa não é golpe, essa alternativa é Constitucional. Novas Eleições SIM!

O caos desencadeia caos, a desordem gera desordem, a corrupção mais corrupção e a divisão para conquistar não é o que o Brasil precisa. Precisamos de alguém que pense na Nação, não na reeleição. De reeleição esse país já não aguenta mais. De legisladores por causa própria, a Lava-Jato coleciona réus. Precisamos reunificar o Brasil.

Estado: conjunto das instituições (governo, órgãos de controle, funcionalismo público etc.) que controlam e administram uma Nação – a nossa Nação.