OS TEORIs QUE NÃO PODEM MORRER

(Imagem: Divulgação STF)

O que legitima alguém ao posto de Herói Brasileiro? Suas realizações profissionais e pessoais? Seus sacrifícios por uma causa e até mesmo pela pátria? Seja lá como for, o para sempre Ministro Teori Zavascki foi um desses heróis brasileiros. Não apenas por suas realizações no campo jurídico do nosso país, mas principalmente por sua firmeza e lealdade para com o futuro da Nação.

Nosso país atingiu um estado de choque ao saber da inoportuna morte de Teori. Não que haja um momento oportuno para a morte, mas muitos pareceram não olhar para o homem acidentado, apenas para a tragédia ocorrida com o relator dos processos “Lava-Jato” no Supremo Tribunal Federal. Um risco, entretanto, para aqueles que se sobressaem em suas funções, especialmente as públicas e de notória diferença do comum (e aqui se lê alinhados com o que é correto e não com o que é corrupto).

O perigo dessa despersonificação, ou seja, não mais ver o homem e sim a posição e o trabalho, pode acarretar em questões mais perigosas para a nossa democracia do que as próprias teorias da conspiração que surgiram após o acidente fatal: a onda de desesperança; o sentimento de insubstituição; e, no caso, o entendimento de final de linha da Lava Jato.

Infelizmente – e podemos afirmar isso de forma bem categórica – no meio em que o ministro atuava, poucos agem de forma heroica, poucos resistem às tentações do poder e se mantém firmes naquilo que devem fazer pelo bem do país. Isso não significa, entretanto, que essas pessoas não existem. Elas existem e a desconfiança sugere que, para além dos limites dos gabinetes, elas são em um número muito maior do que imaginamos.

O mecânico que cobra o preço correto, o policial rodoviário que recusa o cafezinho, a médica que vê o ser humano do outro lado da mesa, a população brasileira que entende o “jeitinho brasileiro” ser mais como uma ginga do respeitoso samba e menos como uma forma esperta de ganho ilícito. Porque o ditado já dizia que o poder corrompe, mas também dizia que os poderosos vem da sociedade.

Da forma como for, a superação das crises que nosso país enfrenta só virão por meio de seus heróis. E aqui não há referência aos “heróis institucionais”, como os Joaquims e Moros, por mais legítimos que possam ser. Mas sim, há referência aos que vão legitimamente para as ruas. Aos que, para além da hipocrisia, vivem a democracia e combatem as pequenas corrupções. Aos que fazem o que é preciso, o que lhes cabe e o que é correto, assim como Teori fazia.

Seu reconhecimento como herói não ocorre no discurso da martirização, mas sim no campo do exemplo. Nas histórias em quadrinhos, heróis são aqueles que detém superpoderes ou que fazem coisas fantasiosas. Aqui, hoje, heróis são aqueles que agem de forma honesta ou apenas cumprem a sua função constitucional. Talvez isso seja deter superpoderes e agir de forma fantasiosa. Teori Zavascki era um deles! Não deixemos seu exemplo se esvair em vão nas linhas da história, sejamos nós também heróis brasileiros. Essa é a esperança que não pode morrer.

TEMOS OS NOSSOS PRÓPRIOS
DONALDs TRUMPs

Algumas análises apontam para uma onda conservadora que toma o mundo desde o extremo oriente russo, passando pela crise imigratória, a guerra da Síria, a saída do Reino Unido da União Europeia e, por fim, o resultado político duvidoso em uma democracia entendida como plena: a dos Estados Unidos. Entretanto, e se não for uma onda conservadora em conteúdo e apenas em forma? E se nós estivermos falando também sobre uma reação desesperada da população mundial frente aos tão falados sistemas saturados, como o sistema político?

A presidência de Donald J. Trump não é resultado apenas de uma onda conservadora, embora ele tenha sido eleito com base em um discurso extremamente conservador-nacionalista e, apesar de ter abrandado esse discurso depois de eleito, seu maior crime foi justamente despertar sentimentos com potencial odioso em seus eleitores; sua presidência também é resultado de uma falta de alternativa aparente, de um desespero coletivo.

“Temos um problema?” “Sim: o mundo enlouqueceu.” “Como resolver?” Ninguém diz nada, ninguém propõe algo tangível para o eleitor mediano. E aí quando surge um cidadão com aparente força e controle e diz “a solução é um muro”, as pessoas não pensam criticamente sobre isso. Elas pensam “oh, alguém com uma solução enérgica, porque todos os outros apenas flutuam em discursos malomenos, apenas criticam, sem uma solução, além de serem esses os discursos que justamente nos colocaram onde estamos, para início de conversa”.

Sabe quem elegeu o novo presidente americano? Não foram os neo-nazistas dos EUA. Foram os eleitores de Bernie Sanders. Foram aqueles que defendem uma economia mais fechada, aqueles que defendem uma ação mais firme do governo, e principalmente aqueles que querem uma mudança do status quo, os mesmos eleitores de Bernie. Parece loucura, não? E é loucura! Porque pela milésima vez, isso vai além do discurso direita-esquerda. As pessoas querem ir para a frente e estão tão desesperadas que pegam na mão de qualquer maluco e confiam como se esses estranhos fossem o próprio Mahatma Gandhi.

A re-invenção da forma como se faz política, é o futuro da política em si. Um novo formato e conteúdo cada vez mais afastado do House of Cards britânico e mais próximo da realidade social. E ela começa não com os indivíduos candidatos, mas com a retomada da comunicação direta, honesta e eficiente com os eleitores, que devem passar a ter um pensamento crítico.

Estamos tão preocupados com a Casa Branca e seu futuro titular, com a alta do dólar e os hobbies atômicos de Vladimir Putin, que nos esquecemos de nossos próprios problemas “domésticos”.

Nessas últimas semana PECs foram aprovadas no Congresso Nacional, diversas escolas foram ocupadas, Estados pediram por socorro financeiro e ex-governadores foram presos justamente por essa falência sistêmica. E enquanto tudo isso acontece, os nossos próprios Donalds Trumps se utilizam de um discurso nacionalista-conservador para garantir seu próprio ovacionamento aos custos de uma Nação inteira. Aos custos do nosso Brasil. Do Brasil de agora e do Brasil de 2018.